“Você largou o emprego no banco para criar monstros digitais?” Essa foi a pergunta exata que fiz ao Carlos, um ex-colega de TI, durante um café em meados de 2021. Ele não apenas confirmou com a cabeça, mas abriu o aplicativo no celular e me mostrou o saldo daquele mês. O valor em Smooth Love Potion (SLP) — a moeda utilitária do Axie Infinity na época — superava, e muito, o salário que ele ganhava gerenciando bancos de dados. Aquele momento foi um divisor de águas na minha percepção sobre o mercado cripto. Não estávamos mais falando apenas de especulação financeira em gráficos de velas; estávamos vendo a economia real ser impactada por economias virtuais. O conceito de GameFi (Game Finance) virou a mesa de uma indústria que, historicamente, funcionava em via de mão única. Antes, você pagava US$ 60 por um jogo, gastava mais um tanto em skins ou itens, e esse dinheiro sumia no cofre da desenvolvedora. O ativo digital era um custo irrecuperável. No modelo Play-to-Earn (jogar para ganhar), o tempo investido no “grind” — aquelas tarefas repetitivas para subir de nível — é tokenizado. Mas vamos olhar para além do hype inicial, porque a realidade de quem vive disso é muito mais complexa do que apenas clicar em botões e receber dólares. Acompanhei de perto o caso de uma “escolinha” (scholarship) no interior de São Paulo. Um investidor comprou os NFTs — os personagens necessários para jogar — e os “alugou” para jogadores que não tinham capital inicial. O acordo era simples: 50% dos lucros para quem jogava, 50% para o dono dos ativos.
Durante o bull market, vi famílias inteiras pagando aluguel e comprando comida com o rendimento desse ecossistema. Parecia mágico, mas expôs uma falha crítica na maioria desses projetos: a sustentabilidade econômica. O problema técnico que muitos ignoram ao entrar nesse mundo é a “tokenomics” inflacionária. Se a única motivação para um novo jogador entrar é o lucro, e o jogo paga esse lucro emitindo novos tokens infinitamente, cria-se uma pressão de venda constante. Quando o fluxo de novos jogadores diminui, a economia colapsa. Foi o que aconteceu com a maioria dos jogos da primeira geração. O Carlos, que citei no início, teve que voltar ao mercado de trabalho tradicional seis meses depois, quando o token desvalorizou 90%. Isso significa que o GameFi morreu? Longe disso. Ele está amadurecendo e se livrando dos oportunistas. Hoje, a análise que faço antes de colocar um centavo (ou tempo) em um projeto GameFi mudou drasticamente. Não olho apenas para o rendimento percentual anual (APY). Olho para a “pia” de queima de tokens (burn mechanism). O jogo precisa ser divertido o suficiente para que os jogadores queiram gastar o token dentro do ecossistema — seja para melhorar um personagem, comprar um terreno virtual ou acelerar processos — sem a intenção de sacar imediatamente. Se o jogo for chato e servir apenas como um caixa eletrônico gamificado, ele tem data de validade. Estamos vendo agora a entrada de estúdios AAA, com orçamentos milionários, tentando integrar blockchain de forma invisível. A ideia é que você tenha a posse real daquela espada lendária que demorou 50 horas para conseguir. Se você cansar do jogo, pode vendê-la num marketplace secundário por Ethereum ou USDC. Isso é soberania digital.