Imagine a cena: Ricardo, 52 anos, termina de escovar os dentes em uma terça-feira comum. Ao enxaguar a boca, ele nota uma pequena mancha esbranquiçada na lateral da língua. Não dói, não sangra. Ele pensa ser apenas o resquício de uma afta mal curada ou talvez uma pequena irritação causada pela prótese. O erro aqui, cometido por milhares de brasileiros todos os anos, é o de esperar a dor chegar para buscar ajuda. No universo da cirurgia de cabeça e pescoço, a dor é, muitas vezes, um sinal tardio. O câncer de boca, tecnicamente conhecido na maioria dos casos como carcinoma epidermoide, nasce de forma silenciosa nas células que revestem a mucosa. É como uma pequena infiltração em uma parede: no início, é apenas uma mancha; se ignorada, compromete a estrutura. Como cirurgião, recebo no consultório pacientes que chegam com lesões avançadas simplesmente porque “não doía”. O autoexame diante do espelho é uma ferramenta diagnóstica poderosa e gratuita.
Não exige tecnologia de ponta, apenas cinco minutos de atenção. Comece lavando as mãos e posicionando-se à frente de um espelho bem iluminado. Observe os lábios, a parte interna das bochechas e, principalmente, o assoalho da boca — aquela região “mole” embaixo da língua. Use uma gaze para puxar a língua para os lados e para fora. O que buscamos? Áreas endurecidas, feridas que não cicatrizam em 15 dias, manchas vermelhas ou brancas persistentes e nódulos no pescoço. A anatomia da boca é complexa e fascinante. Ela não serve apenas para mastigar; é o portal da comunicação e da respiração. Quando um tumor se instala ali, ele ameaça funções vitais. Por isso, o papel do cirurgião de cabeça e pescoço vai além da remoção da lesão. Nós planejamos a preservação da fala, da deglutição (capacidade de engolir) e da estética facial. Em casos iniciais, o tratamento pode ser uma pequena ressecção com laser ou cirurgia minimamente invasiva, com retorno rápido às atividades.
Em cenários mais complexos, lançamos mão da cirurgia reconstrutiva, utilizando retalhos de tecido do próprio paciente para reconstruir a língua ou a mandíbula. Muitos pacientes me perguntam sobre os exames. Se eu encontro algo suspeito no exame físico, o próximo passo costuma ser uma biópsia — a retirada de um fragmento minúsculo sob anestesia local. É um procedimento rápido, de cerca de 15 minutos, que nos dá a certeza do diagnóstico. Se confirmado o tumor, exames de imagem como a tomografia ou a ressonância magnética nos ajudam a “mapear” a extensão da doença. A interação com a radioterapia e a quimioterapia também é rotina. Nem todo caso é puramente cirúrgico; às vezes, essas terapias atuam em conjunto para garantir que nenhuma célula doente permaneça no organismo. O monitoramento pós-operatório é rigoroso, especialmente nos primeiros dois anos, com consultas frequentes para garantir que o tecido está saudável e que a reabilitação fonoaudiológica está progredindo. Dr Stefano Fiuza bethesda classe 2 tireoide